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Falar de signos é falar dos sinais que estruturam o pensamento e servem de veículo às ideias. Falar de sonhos é apresentar os signos que traduzem os nossos desejos.

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Quando eu coordenava o projeto de pesquisa “A Sombra em Eros: imagens da melancolia em escritores brasileiros”, apoiado pelo CNPQ, tive a oportunidade de organizar a coletânea “O rosto escuro de Narciso; ensaios sobre literatura e melancolia”. Nela, além de textos de alunos da pós-graduação em Letras da UFPB, constam uma introdução por mim assinada; um ensaio do professor Jaime Ginzburg; e um Depoimento do escritor Moacyr Scliar.

Scliar acabara de lançar um ótimo livro sobre o tema — “Saturno nos trópicos: a melancolia europeia chega ao Brasil” —, em que vincula a “atmosfera melancólica” ao início da modernidade, “período que coincide aproximadamente com o Renascimento (e) é caracterizado pelo paradoxo: progresso científico, intelectual e artístico de um lado, guerras e doenças de outro” (curiosamente essa polaridade existe no momento atual, com os negacionistas tentando obstacular o progresso representado pelas vacinas que vão livrar a humanidade do corinavírus).

Sabendo que eu estava organizando a obra, o escritor gaúcho generosamente atendeu nosso pedido e nos enviou o referido Depoimento, que é um resumo das ideias que ele desenvolve no seu livro sobre a melancolia nos trópicos.

SONETO ESMERALDINO

Quarenta anos caminhando juntos      

no sempre renovado desafio  

de arrostar a dureza deste mundo,     

tornando-o menos áspero e sombrio.        

Não foram poucas as intermitências

do coração, ou mesmo da vontade,

mas tudo isso deu-nos a ciência

de quanto é forte o selo da amizade.  

Se pelo outro um já não suspira

nem incendeia de paixão a lira    

no assomo juvenil, descontrolado,

hoje me basta a plácida certeza    

de que comigo vais sentar à mesa,   

de me acordar sabendo-te ao meu lado.

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Hoje comemoramos nossas Bodas de Esmeralda (40 anos de casados). Fiz uma breve pesquisa sobre essa pedra preciosa.

Aprendi, por exemplo, que ela “possui um grande poder de cura e de reconstrução”. Além disso, “ajuda no rejuvenescimento”. Reconstrução e rejuvenescimento! Pelo visto, bons eflúvios vão garantir a nossa marcha rumo ao 41° ano (e a outros que se deverão seguir).

Tanto mais que, à energia emanada dessa pedra, acrescenta-se um detalhe que me é particularmente caro aos olhos e ao coração: a identidade entre a cor da esmeralda e a cor dos olhos dela. Como não vislumbrar em tal simetria uma esperança de continuidade? Que assim seja!

Esta foto foi tirada num almoço de adesão ao poeta e crítico Gilberto Mendonça Teles, que então comemorava 50 anos (nascera em 1931). Nela

Estamos eu e Denise, mestrandos da UFRJ; o amigo e escritor Virgílio Moretzsohn Moreira, hoje falecido; e o homenageado (à esquerda de nós).

Um detalhe curioso é que a esse almoço compareceu Carlos Drummond de Andrade, amigo de Gilberto, que escreveu um dos melhores livros sobre o artesanato do poeta (“Drummond, a estilística da repetição”. Mineiramente discreto, ele falava pouco; comportava-se mais como um atento observador do movimento.

Eu e Denise fomos apresentados por Virgílio ao autor de “José”, que, sabendo da nossa origem, fez comentários elogiosos à gestão de Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque no reitorado da UFPB.

Infelizmente não houve foto com o nosso maior poeta. Um pouco por falta de oportunidade, um pouco por constrangimento meu em lhe pedir isso. Consolo-me pensando que naquela época não havia a obsessão e a facilidade do registro fotográfico, com os celulares e suas selfies. É um consolo pífio; a falta de uma foto com ele em uma de minhas paredes bem que dói!

A redação do Enem 2020

Muito oportuno o tema do Enem 2020. A doença mental é tradicionalmente vista com preconceito pela sociedade. Considerava-se que os que padeciam de tal enfermidade purgavam um castigo espiritual por infringir algum código sagrado. Ouvi muito dizer, na minha infância, que a depressão era a ausência de Deus.  

A banca se refere a “estigma” para ressaltar o nível de rejeição a que o doente mental está frequentemente sujeito. O estigma é uma marca, um sinal associado ao que é indigno e desonroso. No domínio da religião, designa as marcas aplicadas aos santos em seus corpos como uma forma de penitência. O termo, como se vê, tem uma forte ligação com a ideia de pecado e arrependimento. Ao estigmatizar alguém, tornamo-lo objeto do nosso repúdio. 

Graças à Psicanálise e ao conhecimento da bioquímica do cérebro, essa concepção negativa da doença mental tem mudado. O depressivo não é nenhum pecador, pelo contrário: seu avultado superego torna-o excessivamente atento aos imperativos éticos. Ele sofre com suas culpas em elevada desproporção ao que faz ou deseja. E isso ocorre, em alguma medida, porque em seu cérebro existe a carência de neurorotransmissores como a serotonina. O depressivo está doente e precisa ser tratado.   

A despeito de conquistas como as citadas acima, o estigma ainda é forte – por desinformação ou pelo mero propósito de rejeitar quem é diferente. Caberia ao aluno apontar como se manifesta essa marca “na sociedade brasileira”, o que o levaria a comentar aspectos da nossa formação e dos valores (ou antivalores) que regem o nosso comportamento social.

É oportuno lembrar que o momento pelo qual passamos poderia ser apresentado como um exemplo do peso das relações sociais nas doenças da mente. O confinamento e o medo têm levado muitas pessoas a procurar atendimento psicológico. Aumentaram os casos de transtorno de ansiedade e depressão não apenas entre os jovens. Também cresceu a violência doméstica. Incluir na argumentação a pandemia e os seus efeitos constituiria um ponderável reforço argumentativo ao desenvolvimento do tema. O importante é que o tema escolhido pelo Enem este ano chama a atenção para um aspecto crucial das patologias mentais: a influência da organização social sobre elas. Se muitos indivíduos adoecem, a sociedade também está doente. Caberia ao candidato, na proposta de intervenção, sugerir meios de promover harmonia ao psiquismo das pessoas. Os agentes responsáveis por tal ação não destoariam dos que são comumente elencados nas redações: a família, educando; a escola, instruindo; e o governo, comprometendo-se com a ética e com o amparo aos que, sem condições socioeconômicas, padecem desse tipo de distúrbios.

Quando visitei a National Gallery, em Londres, fiz questão de posar ao lado dessa tela. Charles Darwin é uma das minhas grandes admirações. O evolucionismo, do qual foi pioneiro, concorreu para clarificar a posição do homem na natureza e, com isso, mudar para sempre a visão que ele tinha de si mesmo.

Desconhecer Darwin é menosprezar a ciência e dar espaço ao obscurantismo, ignorando um dos mais importantes legados da civilização.