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Falar de signos é falar dos sinais que estruturam o pensamento e servem de veículo às ideias. Falar de sonhos é apresentar os signos que traduzem os nossos desejos.

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Em 2002 fui a Leopoldina (MG) com um grupo de professores e admiradores de Augusto dos Anjos a fim de plantar atrás do seu túmulo mudas de tamarindo.

Como se sabe, o poeta manifestou em soneto famoso o desejo de ser enterrado sob a copa frondosa do tamarindeiro que havia no engenho onde nasceu.

O plantio foi feito após uma cerimônia da qual participaram, além da comitiva de paraibanos, o prefeito e outras autoridades. Houve banda de música, fogos de artifício e uma concorrida assistência, testemunhos do amor que a cidade tinha (e tem) pelo paraibano.

Entre os oradores, estávamos eu e a professora Ângela Bezerra de Castro. Como estudiosos do poeta, destacamos aspectos da sua obra e a importância que ela veio a ter para a literatura brasileira.

Na passagem acima há uma falha de regência. O verbo “impactar” é transitivo direto, ou seja, rege complemento não antecedido de preposição. A prova disso é que ele permite a conversão para a voz passiva (“O desenvolvimento do país é impactado pelo pouco investimento em educação”).

 A tendência a conjugar esse verbo como transitivo indireto se deve, em grande parte, à analogia que se faz com o substantivo “impacto”, que rege complemento introduzido pela preposição “em”: “O pouco investimento em educação causa impacto no desenvolvimento do país.”

Caso sério

– Pai, urge que o senhor aumente a minha mesada.

– “Urge”?! O que é isso?

– A professora de redação ensinou que a gente deve dizer “urge”. Tem mais força do que “é preciso”, “é necessário”. Parece, tipo assim, o rugido de uma fera. URRRGEEE!

– Calma, tudo bem. Não precisa me morder. E pra que é que você quer mais dinheiro?

– Vou fazer o Enem, não vou? Preciso ler, me informar. Destarte…

– “Destarte”?

– Sim. Destarte, dessarte… A professora falou que é melhor do que “então”, “logo”, “diante disso”. Ela quer que a gente arrase na prova. E quer, outrossim, um pouco de fama para ela também, claro.

– “Outrossim”?

– O senhor não conhecia?

– Não. Conhecia “outro não”. Era o que eu ouvia de sua mãe toda vez que lhe pedia um beijo. Ela dizia: “Outro não, Valfredo. Por hoje basta.”

– Ah, pai, o senhor é mesmo ignorante. Não é “outro sim”; é “outrossim”, entendeu?

– Não estou vendo diferença, mas entendi. O contrário, então, deve ser “o mesmo sim”. E não outro!

– Caramba, pai! Achei massa essa história do beijo. Então ela lhe dava um fora… Que sádica! E o senhor, entrementes, o que fazia?

– “Entrementes”? Deixe eu ver… Primeiro preciso saber o que é “entrementes”. É alguma coisa como “escorraçado”?

– Nada a ver. Significa “nesse espaço de tempo”.

– E por que você não falou isso?

– Porque a professora disse que “entrementes” impressiona mais.

– Nesse caso, pode entrementar à vontade. O importante é que você arrase na redação.

– Esse é meu desiderato.

– Como?

– Desiderato, objetivo, pô! Também o senhor não saca nada da língua portuguesa!

– Desculpe, ando meio desatualizado. Embora, aqui pra nós, esses termos que você está usando sejam um tanto serôdios.

– “Ser” o quê?

– Serôdios! Sua professora não mandou você usar essa palavra no lugar de “antigos”? Se ela ainda não fez isso, vai fazer. Com certeza.

– Epa! Nada de “com certeza”. É “indubitavelmente”. E sabe de uma coisa? É mister que eu não converse mais com o senhor.

– “Mister”?!

– Isso mesmo. E não fale mais da minha professora, viu? Não quero ouvir. Se fizer isso, que seja à sorrelfa.

– “Sorrelfa”!? Essa também veio da professora?

– Negativo. É contribuição minha mesmo. Pesquei no dicionário para fazer uma surpresa a ela.

– “Sorrelfa”… Socorro, Alaíde! Vem cá ouvir teu filho! Alguma coisa muito séria está acontecendo com ele!

No dia 2 de junho de 2004, dei a primeira aula no “Curso Chico Viana”. De lá para cá foram dezessete anos de um trabalho compensador. Pelo curso passaram mais de 1.200 alunos, parte deles já formada em cursos concorridos como Medicina, Engenharia, Direito (fico feliz quando me dizem que a produção textual ajudou na aprovação). Foram cerca de 40.000 redações corrigidas e a pesquisa de um material que vem abastecendo dois blogs – um pessoal, o outro no site da revista “Língua Portuguesa”. A ressonância desse trabalho nos rendeu convite para participar de um debate em rede nacional sobre a redação no Enem.

A história do curso é também a história dos seus slogans. Prefiro relembrá-los a apagar velinhas: “Competência a toda prova.” “Uma escolha de expressão.” “Você e o Curso Chico Viana. Essa história vai dar um bom texto.” “Não dá pra passar sem ele.” (esse acabou figurando na logomarca por escolha dos alunos), “Experiência que aprova.”

Calma, não pensem que com a comemoração de hoje vai aparecer algo como “Curso Chico Viana é dez.” Essa meta é dos alunos, e por ela continuaremos a trabalhar com a dedicação que tem sido a marca de todos esses anos. Uma dedicação, por sinal, que não teria frutificado sem o apoio de Denise, minha mulher, e da secretária Nízia Maria Clara.

A cidade volta ao nível laranja, com restrições ao fluxo de pessoas nas praias. Quem circulou pela orla do Cabo Branco nos últimos dias não se surpreende com a medida: muita gente sem máscara circulava pelo calçadão e se agrupava nos quiosques.

É surpreendente o desprezo das pessoas por essa medida mínima de segurança. Nem parece que circula no ar um vírus que se transmuta em variantes cada vez mais contagiosas e letais. É como se colocar a máscara replicasse o gesto “idiota” de ficar em casa ironizado pelo presidente — esse baluarte da teimosia e da estupidez.

O Sertão já tem cidades cujos hospitais não podem receber pacientes. Está na iminência de “virar mar” — mas não no sentido de utopia regeneradora associado a essa expressão. Seria antes um mar de cadáveres.