Minha conversa com o “Bruxo”

Aproveito a releitura de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”para trocar um dedo de prosa com o seu autor. “Trocar” não é bem o termo, pois só quem falou foi Machado. Nossa conversa, além de instrutiva, serviu-me para matar o tédio do domingo. Espero que tenha para o leitor a mesma serventia:

 – O senhor é um autor melancólico. Por que se liga tanto no passado?   

 – O menos mau é recordar. Ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se pode gozar deveras.

– Em sua obra é comum o tema da loucura. Há alguma justificativa para isso?

          – O mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cérebro, que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual?

– Por que escolheu um “morto”para ser o narrador de “Memórias Póstumas…”?

– A franqueza é a primeira virtude de um defunto. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte. 

– De fato, um morto não se importa com o julgamento alheio…

– Não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.

         – Por que é tão difícil a franqueza nas relações sociais?

– A veracidade absoluta é incompatível com um estado social adiantado.

– Outro tema recorrente em sua obra é a ambiguidade moral do ser humano. Por quê? 

         – O vício é muitas vezes o estrume da virtude.

– Até que ponto essa ambiguidade é determinada por fatores externos?

– Não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais.

– Apesar disso, transparece na sua obra a ideia de que o homem é fundamentalmente egoísta.

– O nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão.

– Que conselho o senhor daria a um jovem de hoje?           – Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio a fim de lastimar o curso incessante das águas.

Publicado por Chico Viana

Chico Viana (Francisco José Gomes Correia) é professor aposentado da UFPB e doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em sua tese, publicada com o título de O evangelho da podridão; culpa e melancolia em Augusto dos Anjos, aborda a obra do paraibano com o apoio da psicanálise. Orientou cerca de 37 trabalhos acadêmicos, entre iniciação científica, mestrado e doutorado, e foi por dez anos pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). Desde muito jovem começou a escrever nos jornais de João Pessoa, havendo mantido coluna semanal em A União e O Norte. Publicou cinco livros de crônicas.

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