Notas sobre a pandemia (7)

Vi depoimentos de pessoas que foram infectadas com gravidade pelo coronavírus e escaparam. Chamou-me a atenção o que disse um senhor ainda debilitado e de máscara: “É como se afogar no seco.” Vejam o que é a força de uma imagem. Ouvimos o tempo todo que a Covid-19 destrói os alvéolos pulmonares. Isso impressiona, claro, mas é abstrato e conceitual. A imagem, ao contrário, tem o poder da concretude. Atinge mais os sentidos do que o intelecto. Gera identificação por nos fazer partilhar de um afeto, uma sensação, um sentimento. Que informe emitido por uma autoridade médica nos impressionaria tanto, quanto a declaração feita por um ex-infectado de que parecia “se afogar no seco”? Fui dormir apreensivo. Nada do que eu tinha ouvido até aquele momento me evocara com tamanha intensidade o mais angustiante sintoma dessa doença, que é a falta de ar.

Publicado por Chico Viana

Chico Viana (Francisco José Gomes Correia) é professor aposentado da UFPB e doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em sua tese, publicada com o título de O evangelho da podridão; culpa e melancolia em Augusto dos Anjos, aborda a obra do paraibano com o apoio da psicanálise. Orientou cerca de 37 trabalhos acadêmicos, entre iniciação científica, mestrado e doutorado, e foi por dez anos pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). Desde muito jovem começou a escrever nos jornais de João Pessoa, havendo mantido coluna semanal em A União e O Norte. Publicou cinco livros de crônicas.

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