Carta a Berta

Querida Berta:

Faz tempo não lhe escrevo, e me penitencio por isso. Não lhe esqueci, juro; você é uma velha amiga do peito (sem desprezar outras partes da anatomia, claro).

O fato de me manter em silêncio se deve ao luto que tem anuviado meu espírito nos últimos dois anos. O pior é aguentar o ar vitorioso e debochado de Celeste, que me olha como se dissesse: “Que foi que eu falei? Votou nele porque quis!!”.

Ela não consegue superar o ressentimento com a minha escolha política, mesmo eu alegando que naquele momento optara pelo que me parecia “um mal menor”. A prova de que Celeste não me perdoa é que no nosso aniversário de casamento, ocorrido na semana passada, ela deixou um bilhetinho em cima da mesa com a inscrição “Vai passar…”. Não sei o que quis dizer com essa expressão ambígua, mas tive um palpite quando me lembrei de que ela consta numa letra de Chico Buarque e pensei comigo: “De novo, não!”.      

Celeste não concorda com que a Covid-19 seja uma gripezinha e tem observado com bastante rigor o confinamento. Chegou a determinar que guardássemos a distância de um metro um do outro – inclusive na cama (“Não quero que você se aglomere comigo!!”). Para não ficar atrás, propus que cada um ficasse isolado em um cômodo da casa e se visitasse nos fins de semana. Era uma forma de fazer o domingo diferente.   

Ela não quis. Preferiu insistir na ideia de que dormíssemos afastados e chegou a colocar uma fita métrica sobre o colchão. Não foi fácil no início; na primeira noite cheguei a cair do exíguo espaço que me fora destinado. Mas terminou dando certo. Por sinal, ela gostou tanto desse novo arranjo que prometeu mantê-lo mesmo depois de a crise passar.

         O fato, Berta querida, é que estou profundamente abatido com a atual situação. Nunca pensei em ficar em “prisão domiciliar” sem ser corrupto. Que foi que eu roubei para me merecer isso? Daqui a pouco vão pôr em nós uma tornozeleira eletrônica para saber se nos afastamos de casa, e por quanto tempo.

        O mais desgastante é acompanhar o debate entre o presidente e os profissionais da saúde (inclusive o ministro Mandetta) sobre a validade do confinamento. O nosso mandatário maior que quer todo mundo fique agrupado (dizem as más línguas que ele tem medo de perder a claque que o aplaude em frente do Palácio da Alvorada). Pensei em seguir seu conselho, mas desisti quando soube que as máscaras e outros apetrechos usados no combate ao vírus estão sendo maciçamente adquiridos dos chineses pelos Estados Unidos (quem diria que o coronavírus ia se transformar, literalmente, num negócio da China!?). Desconfio de que, embora sejam mui amigos, Bolsonaro não conseguiria que Trump nos cedesse, pelo menos, parte das máscaras.

Diante disso, a alternativa é se confinar ou se finar. Fico com a primeira, claro, mesmo que tenha de sofrer de perto, e continuamente, as provocações ressentidas de Celeste. Enfim, esse é mais um desafio para o nosso casamento, que certamente sairá dele mais forte – e, espero, vacinado.

Beijos trancafiados do eterno Nicanor.

Publicado por Chico Viana

Chico Viana (Francisco José Gomes Correia) é professor aposentado da UFPB e doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em sua tese, publicada com o título de O evangelho da podridão; culpa e melancolia em Augusto dos Anjos, aborda a obra do paraibano com o apoio da psicanálise. Orientou cerca de 37 trabalhos acadêmicos, entre iniciação científica, mestrado e doutorado, e foi por dez anos pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). Desde muito jovem começou a escrever nos jornais de João Pessoa, havendo mantido coluna semanal em A União e O Norte. Publicou cinco livros de crônicas.

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