Cada ave no seu canto

No terraço de uma casa de classe média, vivem um passarinho e um papagaio. Ao saber que haveria um festival de músicas compostas só por aves, o papagaio se dirige ao passarinho (um canário) e lhe propõe:

         – Que tal a gente participar com uma canção? Você faz a melodia, e eu a letra 

         O passarinho topa. Os dois compõem a música e a inscrevem no festival. O resultado não poderia ter sido pior; a dupla foi desclassificada logo na primeira fase. Explicação dos jurados: a melodia até que tinha originalidade, mas a letra era toda plágio.

                                                      ****

           Aprisionado na gaiola, um passarinho passava o tempo voando de um lado para outro. Cantava, cantava muito, pois era por meio do canto que ele extravasava seu anseio de liberdade. Vendo-lhe o desespero, um papagaio que vivia num poleiro próximo lhe disse:   

          – Tolo. Você quer sair dessa gaiola, mas não para de cantar. Não vê que é justamente o canto que faz os seus donos manterem você preso? Deixe de cantar, ou cante mal, que você perderá a serventia e eles vão soltá-lo.

          O passarinho (um canário) resolveu seguir o conselho. A partir daí ficou  mudo ou no máximo emitia uns trinados roucos, bem diferentes dos maviosos sons de antes.   

          Os donos logo notaram isso. A ave não cantava mais… A família então se reuniu para decidir o que fazer com ela. Alguém propôs que a matassem e a servissem como tira-gosto na cerveja do sábado. A ideia foi aceita, e terminaram matando o passarinho.          Moral da história: “Se você nasceu com um dom, jamais renuncie a ele. Essa renúncia pode fazê-lo morrer mais cedo.”

Publicado por Chico Viana

Chico Viana (Francisco José Gomes Correia) é professor aposentado da UFPB e doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em sua tese, publicada com o título de O evangelho da podridão; culpa e melancolia em Augusto dos Anjos, aborda a obra do paraibano com o apoio da psicanálise. Orientou cerca de 37 trabalhos acadêmicos, entre iniciação científica, mestrado e doutorado, e foi por dez anos pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). Desde muito jovem começou a escrever nos jornais de João Pessoa, havendo mantido coluna semanal em A União e O Norte. Publicou cinco livros de crônicas.

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