Rumo ao “hepta”

            Hoje faço 69 (sem duplo sentido, por favor!). Não posso dizer que tenho a sensação do dever cumprido, pois, aja como agir, sempre me sentirei em débito comigo e com os outros (meu analista não conseguiu resolver isso). O delicado nessa idade é a gente saber que está se despedindo da faixa do “sexa” e entrando na do “hepta”. “Heptagenário” não deve soar bem em nenhuma língua. Ainda não sei como vou reagir daqui a um ano.     

             Parece natural, a esta altura, ter a sensação de que se “viu tudo”. Que nada! A vida sempre nos reserva surpresas. Eu nunca imaginei, por exemplo, que seria contemporâneo de uma pandemia. Essa é, por sinal, a maior razão por que me recusei a comemorar o aniversário; não tem sentido apagar as velinhas quando o Governo parece ter a intenção de “apagar” os velhinhos. Fica discutindo questões político-ideológicas num momento em que o País já se preocupa com a carência, não leitos, mas de covas.

            Cheguei a conviver com a gripe asiática nos anos 1950, mas nem de longe isso provocou em mim a impressão, ou o abalo, que o coronavírus vem provocando. Eu era criança e não fazia parte do chamado grupo de risco. Hoje o noticiário me lembra o tempo todo que, se contrair o vírus, serei um candidato a morrer. À noite, em soturnos devaneios, suspiro pela vacina ou ao menos pela cloroquina (que, agora me dizem, pode ser pior do que a doença).

             Nada de nostalgia numa data como esta. Tento viver com resignação e encarar o passar do tempo sem desencanto. Não tenho ilusões metafísicas nem acho que se precise delas para, digamos, dar um sentido à vida. Há várias formas de fazer isso considerando a nossa realidade natural. Da natureza viemos e a ela vamos retornar. Cada vez mais me convenço de que o grande desafio, a conquista maior, o mérito que a todos se superpõe – é amar os outros. Para isso faz-se necessário vencer o egoísmo e a avidez pelo dinheiro, que tem matado mais do que qualquer agente infeccioso.

            A vida tem coisas boas, como a família, o trabalho e o bolo de ameixa. A família é um ancoradouro; sem ela, que nos dá afeto e nos atura, ficaria mais difícil suportar a dureza do mundo. O trabalho é o que nos confere identidade; a gente se reconhece no que faz. E o bolo de ameixa, bem, entrou aqui por uma associação involuntária (decerto pela memória inconsciente de um bolo que comi em Paris. Pardonnez-moi! É que ele lembrava o pavê branco de minha mãe.)

            Ao avançar nos anos, recuamos nos enganos. Chama-se a isso lucidez. É o mínimo que um sexagenário pode almejar para sentir que o percurso tem valido a pena. Mas a lucidez, é bom que se diga, não nos coloca em nenhum patamar superior. Apenas nos ajuda a perceber nossos limites, que são tantos.

            Goethe, no leito de morte, chegou a clamar: “Luz! Mais luz!”. Era um gênio, estava no término da vida, e ainda parecia vagar numa penumbrosa incompreensão dos enigmas do mundo. Que dizer de nós, pessoas comuns? Embarco na nova idade mais lúcido, porém não necessariamente mais sábio. E sobretudo grato ao acaso (o disfarce de Deus) e às pessoas que me fizeram chegar até aqui.

Publicado por Chico Viana

Chico Viana (Francisco José Gomes Correia) é professor aposentado da UFPB e doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em sua tese, publicada com o título de O evangelho da podridão; culpa e melancolia em Augusto dos Anjos, aborda a obra do paraibano com o apoio da psicanálise. Orientou cerca de 37 trabalhos acadêmicos, entre iniciação científica, mestrado e doutorado, e foi por dez anos pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). Desde muito jovem começou a escrever nos jornais de João Pessoa, havendo mantido coluna semanal em A União e O Norte. Publicou cinco livros de crônicas.

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