Fanatismos

Em que diferem o fanático religioso e o fanático ideológico? Ambos têm em comum a intolerância com os que não partilham dos seus credos e a tendência a julgá-los como filiados ao credo oposto. Não aceitam o meio-termo – essa instância de sensatez na qual, segundo os gregos, está a virtude. Para eles, quem não milita em suas hostes fatalmente se vincula às hostes contrárias.

Esse tipo de raciocínio abre caminho para a autoindulgência e a prévia condenação do outro. É a morte da autocrítica e a entronização de mitos e dogmas. Em vão a realidade insiste em perfurar essa delirante carapaça, pois o caminho está fechado à razão.

Mas (eis a diferença) no fanático religioso a intolerância decorre da crença num Além. Essa crença, mesmo ilusória, de certo modo reduz a responsabilidade do indivíduo que a nutre. É a Divindade (seja ela qual for) quem o inspira e requisita. Isso lhe turva a consciência, mas o faz agir de “boa-fé.

Já o fanático ideológico não acredita em ilusões metafísicas que lhe inspirem as convicções. É um pseudorracionalista, alguém que considera a hipertrofia intelectual como um domínio da razão.

Seu propósito é rejeitar tudo que pertence ao outro lado (mesmo bom) e acolher tudo que pertence ao seu lado (mesmo mau). Sua ética, tendenciosa, baseia-se no ressentimento. Divide o mundo entre os que pensam igual a ele e os outros, nos quais é incapaz de enxergar virtudes.

Como sou um anarquista de extração milloriana (“Todo homem é minha presa”), esquivo-me de militar em um lado ou outro e busco (quando deixam) protestar contra os erros que há nos dois. Afinal, nenhum ser humano está imune à recriminação (e sobretudo à anedota).

Publicado por Chico Viana

Chico Viana (Francisco José Gomes Correia) é professor aposentado da UFPB e doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em sua tese, publicada com o título de O evangelho da podridão; culpa e melancolia em Augusto dos Anjos, aborda a obra do paraibano com o apoio da psicanálise. Orientou cerca de 37 trabalhos acadêmicos, entre iniciação científica, mestrado e doutorado, e foi por dez anos pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). Desde muito jovem começou a escrever nos jornais de João Pessoa, havendo mantido coluna semanal em A União e O Norte. Publicou cinco livros de crônicas.

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