O vírus e a fé

Foto por Magda Ehlers em Pexels.com

Hoje completo 70 anos, mas a culpa não é minha. Por mim eu teria ficado nos cinquenta, que é o limite entre o vigor e um presumível início de decrepitude. O tempo deve ter me trazido até aqui para mostrar o quanto a gente se modifica e permanece o mesmo com o avanço da idade.

           Se o menino é pai do homem, como disse Machado, o velho é um rebento pouco promissor da maturidade. Ele se enriquece em experiência mas, a partir de certo momento, também em ineficiência. Detém um saber que não lhe será útil para muita coisa, a não ser para se consolar do que não pode mais fazer.

          Há um ano, eu lamentava comemorar os 69 em tempos de pandemia. Não imaginava que aos 70 me depararia com uma situação idêntica – ou talvez pior. O número de mortes já era grande, mas se avolumou a ponto de abarcar amigos e conhecidos. O que foi feito nesses 365 dias para controlar a infecção? Pela forma como ela veio se propagando, muito pouco ou quase nada.

           No entanto, fiz a minha parte. Fiquei em casa, usei máscara, lavei as mãos e não me aglomerei. O que não pude foi impedir que o vírus se multiplicasse enquanto eu envelhecia mais um ano. Resistimos, ambos – ele como um espectro velado, eu como uma vítima em potencial. Agora que estou em processo de vacinação (esperando a segunda dose da Coronavac), torço para me livrar da sua ameaça agressiva e mutante. Mesmo isso acontecendo, não poderei repor o que o coronavírus me subtraiu de serenidade e alegria.

          Por que falar nele numa data como esta? Porque sem o vírus a comemoração seria diferente. Eu estaria, como em anos anteriores, confraternizando com as pessoas da minha afeição. Em prazerosa aglomeração familiar. O vírus nos impõe a distância e empurra cada um para dentro de si mesmo. Suprime-nos o convívio, que num dia como hoje é fundamental. Quisera estar ingerindo outro tipo de “dose”, mais inebriante e festiva do que a que deverá ser aplicada em meu braço. Mas, pensando bem, no atual momento esse ainda é o melhor presente que posso receber.

              Com o passar do tempo, o problema maior não é ter planos para o futuro. É ter futuro para pôr em prática os planos que a gente faz. Nestes tempos de pandemia e de querelas políticas que só retardam a erradicação do vírus, meu projeto mais caro é sobreviver. E poder, com fé, comemorar outros aniversários.  

Publicado por Chico Viana

Chico Viana (Francisco José Gomes Correia) é professor aposentado da UFPB e doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em sua tese, publicada com o título de O evangelho da podridão; culpa e melancolia em Augusto dos Anjos, aborda a obra do paraibano com o apoio da psicanálise. Orientou cerca de 37 trabalhos acadêmicos, entre iniciação científica, mestrado e doutorado, e foi por dez anos pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). Desde muito jovem começou a escrever nos jornais de João Pessoa, havendo mantido coluna semanal em A União e O Norte. Publicou cinco livros de crônicas.

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