Imunidade

Vivemos o mesmo, tudo é repetição, mas cada um sente isso à sua maneira. O que nos angustia não é o fatalismo do eterno retorno; é ver que o homem parece imune ao que se costuma chamar de conquistas da civilização. Ele é o mesmo animal que, por egoísmo e indiferença, não hesita em destruir “o semelhante” (se é que se comove com essa bela noção cristã).

Crença e retribuição

Há pessoas que acreditam num Ser Superior para não se sentir inferiores (arrogância). Outras adotam essa crença para realçar sua pequenez (humildade). O problema não é se Deus existe ou não. É saber que efeito sua existência terá em nossas vidas. Infelizmente poucos retribuem o conforto de acreditar nele com um comportamento moralmente digno. Vão à igreja para “salvar suas almas”, como se bastasse acreditar para se redimir.

Dicas de estilo (sem estilo)

Ou “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”

1 – Interjeições excessivas? Evite-as!!!!

2 – Não abuse de metáforas futebolísticas. Esse tipo de tabelinha com a linguagem do futebol nem sempre satisfaz a galera. O leitor pode se sentir driblado e dar cartão vermelho para o escritor, mandando-o antes do tempo para o chuveiro.

3 – Falhas na concordância e na coesão denuncia falta de conhecimento gramatical. Evite-a.

4 – Não misture as pessoas gramaticais. Tu podes fazer isso quando usares a linguagem coloquial, mas nunca em sua redação para vestibular ou concurso. Nela escrevemos com alguma formalidade e você tem que seguir a norma culta.

5 – Das inversões fuja. Comprometem elas das ideias a clareza.

6 – Evite repetições, pois elas dão a impressão de que o texto não progride. Repetir gera no leitor a sensação de que as ideias ficam no mesmo lugar, não evoluem. Quem repete permanece no mesmo círculo de ideias e faz o texto circular em torno de um mesmo tema, sem sair do canto.

7 – As longas intercalações entre sujeito e predicado, por fazerem o leitor esquecer o que o que foi dito no início, levando-o a suspender a leitura e ter de reler toda a frase, o que termina prejudicando a compreensão do texto como um todo, devem ser evitadas.

8 – Evite exageros. A hipérbole é o pior entre os piores pecados que podem acometer um escritor em todos os tempos.

9 – É mister escoimar o texto de vocábulos preciosos ou pernósticos. O uso de tais palavras é próprio dos alarves e apedeutas. Indica, outrossim, uma mente deslumbrada com as reverberações de um saber despiciendo, que leva a conclusões inanes sobre os transcendentais enigmas do Homo sapiens

10 – Prefira a linguagem denotativa; ela é um lago transparente de onde emerge com clareza o sentido das palavras.

11 – Evite em seu texto manifestar preconceito contra as mulheres. Do contrário, elas vão reclamar de você o tempo todo sem lhe dar chance de se defender. Mulher – todo o mundo sabe – não tem paciência para compreender as razões do outro e termina transformando o que deveria ser um diálogo esclarecedor num monólogo interminável – em que, obviamente, só ela fala.  

12 – Medite nesta verdade preciosa: rima é bom em poesia, não em prosa.

13 – Fuja dos enunciados vagos e genéricos. Eles dão aquela sensação de algo que não se sabe bem o que é, embora todos de alguma forma já tenham sentido em certos momentos da vida. Alguns têm disso uma longínqua ideia, mas só conseguem defini-la em determinados contextos ou por algum tipo de sugestão diferente da que experimentaram no início, antes de tudo fazer sentido. Ou não.

14 – Ao estar fugindo do gerundismo, você não estará fazendo mais do que sua obrigação. Vá ficando atento.

15 – Você acha que o excesso de perguntas retóricas torna mais eficiente o seu texto? Será que elas necessariamente facilitam o diálogo com o leitor? Ou podem deixar o discurso redundante, sugerindo questões que na verdade não existem? Não será melhor usar frases afirmativas, deixando logo claro o que se quer dizer?

16 – Portanto, não inicie o texto pela conclusão. Comece-o mesmo pelo começo, apresentando o tema e depois os argumentos.

17 – Um texto com excesso de “quês” parece que tropeça a cada momento e mostra que a pessoa que o produz tem que melhorar o ouvido.

18 – Sem essa de gírias, mano. Se você é um mané que se amarra nesse tipo de coisa, vai levar bronca do pessoal da norma culta. Com certeza.

19 – Seja evitado em sua redação o excesso de voz passiva analítica, para que você não seja visto pelo leitor como alguém a ser desprezado.

20 – É bom moderar o uso da mesóclise. O bom escritor evitá-la-á em nome da simplicidade, pois a colocação do pronome no meio do verbo trar-lhe-ia aspereza acústica e transformá-lo-ia num monstrengo aos ouvidos de hoje.

21 – Evite fragmentar o período. Pois isso é uma grave falha. Gramatical e estrutural.

22 – Evite as generalizações. Todos os que até hoje generalizaram foram repreendidos por seus professores de português.

23- Sei que é difícil fugir das frases feitas, mas faça um esforço. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

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“Redação sem risco” contém comentários preciosos sobre alguns dos procedimentos necessários à produção de um bom texto. O material foi elaborado com base em nossa experiência em sala de aula, ensinando redação para candidatos ao Enem e a concursos públicos. Coesão, coerência, concisão, adequação vocabular são alguns dos tópicos abordados em textos curtos e objetivos, que lhe mostrarão o que é preciso para captar o interesse do leitor. Entenda por que a boa argumentação é o resultado da correção gramatical, de um bom acerto informativo e do raciocínio claro. Acesse o site da Amazon, e boa leitura!

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O complô

Não se sabia se aquilo era um fórum, uma assembleia ou um bate-boca de desocupados. O certo é que lá estavam reunidos uns tipos estranhos – umas figuras! A primeira a falar foi Metáfora, que desde o início, contra a opinião de Metonímia, autointitulara-se chefe do grupo:

– Amigos, eu aqui sou a cabeça – ou o cabeça, como queiram. Precisamos reagir. Basta de espoliação. O Escritor nos usa o tempo todo, e depois é dele a glória, os louros, a Academia. Ora, nós é que somos imortais. Queremos os nossos direitos.

– As figuras, unidas, jamais seremos vencidas… – entoou Silepse. Mal ensaiava o coro, no entanto, foi interrompida por Metonímia, que resmungou:

 – Não aceito o seu cajado, ó Metáfora. Como podemos escolher um líder que o tempo todo muda de sentido? O cabeça aqui devo ser eu.

– Mas que arrogância! – objetou Metáfora. – Até para dizer isso você me usa. “Cabeça” aí é metáfora. Vê como sou mesmo importante?

Metonímia não se deu por rendida:

– O seu destino é ser como aquela ali – e apontou ao longe Catacrese, que desgastada e sem brilho jazia no olho da rua, ou seja, num lugar-comum.

– Sabe por que aconteceu isto com ela? – insistiu Metáfora. – Porque se deixou usar demais. Agora já não impressiona nem comove. E será esse o meu, o seu, o nosso destino se não nos rebelarmos agora contra o Escritor. Que ele reconheça a nossa força e o nosso brilho ou, então, que fique de uma vez nos braços daquela outra – e olhou desdenhosamente para Gramática, que a tudo assistia, impassível, no outro extremo da sala.

A essas palavras, um frisson percorreu a assembléia. Cochichos, uivos, gritos marcaram a adesão ao ponto de vista de Metáfora. Era preciso fazer ver ao mundo, com todas as letras, como elas sempre foram exploradas pelo Escritor. Só se atribuíam a ele o mérito e o talento pelos textos que escrevia, mas de onde vinham na verdade a graça, o vigor, a beleza de suas produções? Vinham delas, figuras, que não mereciam do ingrato nem um registro de rodapé.

Cada uma quis externar o seu ressentimento. Hipérbole era a mais exaltada: “Vamos prendê-lo e crucificá-lo!”. Felizmente essa conclamação não sensibilizou a todos, esbarrando no bom senso dos mais ponderados. Lítotes preferiu comentar que o Escritor, de fato, não era lá muito honesto – opinião compartilhada por seu pai, Eufemismo. Elipse nada disse, mas fez questão de dar a entender o que pensava. Perífrase começou, fleumática: “Colegas, antes de manifestar o meu juízo sobre o assunto desta pendência, o qual pretendo seja o mais isento possível, levando em conta não apenas os argumentos aqui apresentados por Metáfora, como também…” – mas o auditório, aos gritos de “Vamos aos finalmentes!”, não deixou que ela terminasse.

Anacoluto foi sucinto: “O Escritor, vamos dar cabo dele.” – e esse apelo, conquanto ferisse os ouvidos de Eufonia (que se retirou, aborrecida, alegando questão de ordem), concorreu para que o auditório tomasse uma decisão: trazer o Escritor a plenário e pedir-lhe que, dali por diante, reconhecesse e informasse a todos de quem dependiam os méritos de seus textos. Ou isso, ou o abraço frio de Gramática.  “Quero ouvi-lo dizer com as próprias palavras que os reais criadores somos nós” – enfatizou Pleonasmo sob o aplauso geral, ao mesmo tempo que Sinestesia dizia consigo, amedrontada: “Ih, que eu sinto cheiro de barulho…”.

Pouco depois o Escritor entrava na sala e ouvia as reclamações do grupo. Enquanto Metáfora lhe anunciava a sublevação e as opções que lhe restavam, ele podia ver do outro lado Gramática sorrindo e lhe mostrando as algemas – umas algemas simbólicas, é certo, disfarçadas num monte de normas, regras, hábitos que pareciam ao Escritor a morte do sonho, da invenção, da ousadia.

– Seja o que for que vocês queiram, eu cedo – acabou por dizer. – De agora em diante, a glória do que eu escrever será de vocês. Mas tem o seguinte – seguiu-se uma pausa tensa, em que cada figura arregalou os ouvidos e os olhos: – De vocês quero também o sangue, os nervos, os sonhos e o medo de morrer. Sem essa vibração e sem esse temor, que são o combustível de tudo que escrevo, nenhuma de vocês me serve. Nenhuma de vocês funciona – assim como um corpo não funciona sem desejo e sem alma.

Ouvindo tais palavras, Metáfora desabou. Literalmente. 

Uma razão para escrever

Por que se escreve? Porque falta sentido à vida e sobre isso é preciso dizer alguma coisa. A escrita é exercício e aventura. É um jogo sério, pois se faz com palavras, e juntá-las nem sempre conduz ao resultado que se espera. Um jogo de tentativas e muitos erros, mas que nos poucos acertos revela umas tantas verdades sobre nós.

O homem não se constrói apenas por obras, constrói-se também por signos; o escritor é o artífice maior dessa construção.

Arte e liberdade

Platão não queria os poetas na República. Considerava-os perturbadores da ordem. A ideia de que a arte contém o fermento da desordem é velha e tem servido de justificativa para que governos totalitários (de esquerda ou de direita) busquem limitar ou dirigir as manifestações artísticas. O pretexto para isso é a vinculação que elas deveriam ter com ideologias como a do nacionalismo.

A arte não pode se comprometer com projetos nacionais, que servem basicamente a interesses do Estado. Ela é a “região da liberdade” e deve atender aos anseios dos artistas; por meio das obras eles expressam suas angústias e perplexidades (que são as de todos nós). Fazem, assim, com que nos conheçamos melhor.

A função da arte, como diz Alain de Botton, é proceder à “crítica da vida”. Isso não se faz sem liberdade e compromisso com os valores éticos.
Quem se propõe a doutrinar moralmente sobre a arte ou não entende nada de estética ou está mal-intencionado. Por mais que acene ao heroísmo, ao sentimentalismo ou ao sacrifício em prol da nação, não esconde seu nefasto propósito de retirar do homem o que o peculiariza — a liberdade de pensar e a possibilidade de traduzir as inquietações que lhe vão na alma.

Humor erudito

Uma das anedotas preferidas de Freud: um casal de meia idade está sentado numa mesa de restaurante. Levemente entediados, marido e mulher não têm muito o que dizer. De repente ele se dirige a ela e fala: – Se um de nós dois morrer, eu vou morar em Paris…

Godard, o cineasta francês, gostava muito desta: um condenado à morte é conduzido por seus algozes ao local da execução. Ao subir no patíbulo, tropeça e quase cai. Olha então para os que o conduzem e comenta, um tanto exasperado: – Hoje não é meu dia de sorte!

         Kant, segundo dizem, deliciava-se com a história de um homem que ficou viúvo e resolveu contratar pessoas para que se entristecessem e chorassem no enterro da ex-mulher. No entanto, quanto mais aumentava o valor do pagamento, mais os contratados se alegravam!

Sabatina de Português

– “O homem tropeçou no batente.” Qual o tipo de sujeito dessa frase?

– Descuidado, professor. Se ele estivesse atento, não teria tropeçado.  

          – Não é isso, Pedrinho.  Refiro-me ao sujeito gramatical… É “simples”, pois tem apenas um núcleo. Mas deixa pra lá. Vamos ver se você conhece os complementos. “Diógenes jogou uma pedra na vidraça.” Classifique o objeto “uma pedra”. É direto ou indireto?

         – Depende. Se a pedra bateu em outro obstáculo antes de quebrar o vidro, o objeto é indireto. Se não, é direto.

         – Não tem nada de bater em outro obstáculo! “Pedra” é objeto direto, pois não se liga ao verbo por meio de preposição. Você está mal, mas vou lhe dar outra chance. “Busca por um emprego” – transforme esse tópico em oração.

– “Senhor, fazei com que eu consiga arranjar um emprego. O mercado está difícil, por isso apelo a vossa misericórdia para…”.

– O que é isso?

– Uma oração em busca de emprego, ora. O senhor não pediu?

– Falei de um “enunciado com verbo”; é assim que a gramática define oração. Até agora você não acertou uma, e desse jeito vai ser reprovado. Como tenho bom coração, vou lhe fazer uma pergunta bem fácil. Diga uma frase em que apareça um artigo indefinido.

– “O embrulho estava fechado.”

– Aí não tem artigo indefinido.

– Como não tem? Se ninguém desfez o embrulho, não se pode definir o artigo que está nele.      

– Essa sua lógica, Pedrinho! Já estou perdendo a paciência. Vamos sair da gramática e entrar nas figuras de linguagem. O que é “metáfora”?

– O que não deve ser metido dentro. Por isto se manda meter fora.

– Engraçadinho…  Dê um exemplo de hipérbole. Vou ajudar: hipérbole é exagero.

– “O senhor é um ótimo professor.”

– Aí tem exagero? Você acha que não sou tão bom assim?

– Depende da nota que vai me dar…

– Esta bem, vamos partir para outra figura. A metonímia, lembra? Ela permite que se mude o sentido das palavras com base em relações de causalidade ou proximidade.  Pode-se designar, por exemplo, a parte pelo todo; o autor pela obra; o continente pelo conteúdo…

– Isso é demais para a minha cabeça!

– Excelente!! “Cabeça” no lugar de “cérebro”, “inteligência”. O continente pelo conteúdo. Ou o concreto pelo abstrato. Acertou.

– Professor, eu não tive a intenção…

– Não seja humilde, Pedrinho. Você está certo.

           O mestre então o aprovou, com alívio. “Menos um para engordar as estatísticas da evasão escolar”, pensou.

A outra face

Tem sido muito comentado o tapa que o papa Francisco deu na mulher que tentou agarrá-lo. O gesto agressivo e raivoso do Sumo Pontífice surpreendeu os que se acostumaram com a fala mansa e a doçura estampada em seu rosto.

Como classificar aquele rompante de brutalidade? O gesto foi lamentável, claro, pois do representante maior de Cristo na Terra se espera tolerância e boa vontade com os que o importunam ou ofendem. Foi no mínimo um descompasso entre o homem e o seu papel.

Mas (e aqui se invoca um conhecido preceito cristão) “não julgueis para não serdes julgados”. Se por um momento Francisco esqueceu que era “o papa”, terá havido razões para isso. Entre elas, certamente, as pressões que vem sofrendo por parte de segmentos conservadores da Igreja.

O papa tem assumido posições corajosas, como a de denunciar e punir os pedófilos. Quer resgatar a imagem da instituição e reconquistar a confiança dos que, decepcionados com os escândalos sexuais, dela vêm se afastando.

Sou um admirador de Francisco e gostaria de não ter assistido àquela cena. Presumo que muitos católicos têm o mesmo sentimento. Vê-lo perder o controle tisnou um pouco a sua imagem. Os que agora dele se aproximarem farão isso com prevenção e algum temor. Sabe-se lá se o homem vai estar num dia ruim! O consolo é que Francisco não estará só. A grande massa dos cristãos vai entender seu gesto “humano, demasiadamente humano” e, nesse momento delicado da sua vida, rezará por ele. O comum é ocorrer o contrário, mas há circunstâncias nas quais se inverte a corrente e o papa é que precisa de orações.