A palavra mais longa

A revista Língua Portuguesa (Segmento) fez uma pesquisa para saber qual a maior palavra do português. Quem pensou que ganharia “anticonstitucionalissimamente” se enganou. Essa ficou em segundo lugar, com 29 letras.

A campeã foi “pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico”. Ela tem 46 letras e designa “quem caiu doente por aspirar cinzas de um vulcão”.

Escrever e pensar

A gente pensa para escrever ou escreve para pensar? As duas coisas. O propósito de dizer algo faz com que persigamos o que deve ser dito, e isso ativa o fulcro das ideias. Assim, pensamos mais. O esforço tem também a vantagem de nos conduzir a verdades até então inconscientes.

Van Gogh

Uma das funções da arte é reinventar a Natureza. É infundir-lhe alma, tornando-a uma representação dos conflitos humanos. Em poucos artistas se vê isso com tanta eloquência como em Van Gogh. É surpreendente a energia com que o pintor representa flores, objetos, figuras humanas. Ele procura captar não a aparência reconhecível, mas a dimensão profunda do que é representado e vem a traduzir seus próprios temores e obsessões. Como escreveu ao irmão Theo, num rosto importam menos os traços do que a expressão. Existe uma energia latente nos elementos da Natureza, e cabe ao artista expressá-la. Van Gogh o faz em pinceladas vibrantes e de uma rara densidade cromática. Estar diante de uma tela dele nos ajuda a entender por que Dostoiévski disse que a Beleza salvaria o mundo.

(Amsterdã, 05 de julho de 2018)

Solidão cósmica

Ad Astra (Rumo às estrelas) é um filme sobre a solidão. A cósmica solidão humana. O personagem principal (interpretado por um compenetrado Brad Pitt) é convocado a procurar o pai, que há mais de duas décadas saíra numa missão encarregada de descobrir vida fora da Terra. Pensava-se que ele tivesse morrido, mas havia indícios de que isso não ocorrera, e o filho termina incumbido de apurar a verdade.

O filme associa dois valores estruturantes do nosso equilíbrio psicológico: a figura do pai e a visão de um

além (representada pela perspectiva de existir vida fora da Terra). A ausência de um deles (ou de ambos, como acontece ao protagonista) costuma intensificar o sentimento de solidão. O personagem se depara com um pai “perdido” e preso à culpa de ter malogrado em sua tentativa de encontrar extraterrestres.

Mas a mensagem do filme é positiva: se estamos sós, devemos procurar a salvação em nós mesmos. Não existe alternativa senão a compreensão e o amor. Essa verdade constitui um apelo ao entendimento e à compreensão, numa época em que parece vez maior a hostilização entre os povos. Ou nos entendemos, ou retornamos à barbárie exemplificada nos símios que invadem a nave onde estão Pitt e seus colegas. Aqueles macacos constituem uma grotesca alegoria do que poderemos ser no futuro. Está dado o aviso!

Proust e o homessexualismo

Em “Sodoma e Gomorra” – terceiro volume de “Em busca do tempo perdido –, Proust faz nas primeiras páginas uma caracterização exaustiva do homossexualismo, buscando entender (e explicar) a psique do que chama de “homens-mulheres” e “mulheres-homens”.

Uma pílula retirada da página 29: “Toda criatura busca seu prazer, e, se essa criatura não é por demais viciosa, busca-o num sexo oposto ao seu. E para o invertido o vício começa (…) quando (…) busca o seu prazer nas mulheres.”

Ele usa o termo “vício”, que hoje pode soar politicamente incorreto. Mas usa-o como Freud usa “perversão”, ou seja, com um propósito mais descritivo, ou analítico, do que moral.

Argumento de amor

Ninguém tem de si uma ideia muito boa para amar o próximo por este lhe ser semelhante. Se o mandamento fosse outro, impressionaria mais. Por exemplo: “ame o próximo que seja melhor do que você”. Como tendemos a nos igualar a quem amamos, esse argumento teria grande força persuasiva. Amaríamos para sair um pouco de nós e absorver o que há de bom no outro.

O personagem que cada um é

Todo homem é mais do que “seu” personagem, por isso evite se confundir com o personagem que você é (palhaço, juiz, cínico, piedoso…). Esse tipo de confusão tipifica e estigmatiza. E sobretudo impede que emerjam outros traços da sua personalidade, pois ninguém é uma coisa só.

Discurso e verdade

Muitos tendem a julgar a opinião de quem escreve como “a última palavra”. Acham que ele é um porta-voz da “verdade”. Quem pensa assim esquece que o compromisso do escritor é sobretudo com a linguagem e que  a verdade do discurso não é necessariamente o discurso da verdade.

Feiura ideal

Fala-se muito na beleza ideal, mas pouco se comenta a feiura ideal. Até nesse aspecto, coitados, os feios sofrem preconceito. Deve ser porque diante dos feios levamos o que se convencionou chamar “choque de realidade”. Nesse caso a feiura seria, digamos, mais sincera, enquanto que na beleza haveria muito de miragem. A beleza é uma promessa de felicidade, como diz Flaubert, e promessas nem sempre se cumprem.