Advogados

Cinco razões pelas quais eu gostaria de ser um advogado. Eles

– não precisam buscar popularidade, já que são líderes em audiência.

– têm mais do que as outras pessoas espírito cristão, pois lutam para que se perdoe o réu independentemente de ele ter ou não culpa.

– dificilmente se apertam, devido à habilidade que têm para obter recursos.

– estão sempre dispostos a assumir uma boa causa. 

– têm a filosófica compreensão de que a vida é um conjunto de processos que não devem chegar necessariamente ao fim (a não ser com a morte).

Em Finados

O luto é o único sentimento que não admite reciprocidade. A saudade dos mortos é via de mão única. Isso não quer dizer haja neles indiferença, de modo que o tal “desdém dos defuntos” (de que fala Machado de Assis) não passa de imagem. Uma imagem que de alguma forma constitui um consolo, pois pressupõe que os mortos, se não estão no céu, gozam de uma autossuficiência que lhes torna inútil o nosso sofrimento. Sofremos por nós, não por eles.

Pontuar

Luis Fernando Veríssimo escreveu numa crônica que nunca tinha usado  o ponto e vírgula por não entender bem para que ele servia. A observação do escritor gaúcho, que é antes uma blague contra os gramáticos e puristas, sugere-nos algumas reflexões sobre a arte de pontuar. Ela tem a ver com um dos atributos fundamentais da poesia ou da prosa, que é o ritmo. Literatura é linguagem ritmada e para dar ritmo ao texto é fundamental o uso desses sinais. Se a alguns ele aborrece e inibe, a outros empolga e mesmo encanta.

         Pontua-se como se respira, respira-se como se pontua. E quase sempre ocorrem os exageros. Há os que decompõem o enunciado, abusando do chamado fragmento de frase. E picotam o período. Às vezes sem necessidade. Apenas pelo gosto de fracionar. De separar. De isolar os componentes da oração. Sujeitos. Predicados. Complementos.

Há, pelo contrário, os que constroem períodos densos, longos, torrenciais, desses que tendem a abusar da paciência do leitor, coitado, que parece estar atravessando um rio interminável e caudaloso, e fica na expectativa de que aquilo termine pois, com o tempo, ele até já esqueceu o que foi dito no início da frase e tudo o que deseja, a partir de certo momento, é que o escritor se compadeça da sua paciência e mesmo do seu fôlego, que dentro em pouco lhe faltará como já lhe falta a boa vontade para prosseguir na leitura, e ponha enfim nessa teia aparentemente infindável um ponto final. Ufa!

Há os que se exaltam à toa e abusam do pontos de exclamação. Sempre! Até sem motivo! Como se vivessem numa perpétua euforia! Ou num perpétuo susto! Há os que abusam das reticências. Esses não dizem logo tudo, fazem suspense… Preferem deixar sempre alguma coisa no vento, no ar… Imaginam que nesse deliberado laconismo é que mora a sutileza… O gosto de sugerir, explorar as entrelinhas, sabe como é… Pois o texto fala mais, quando… Eu sei que vocês me entendem. 

Há os que (geralmente são os perfeccionistas) gostam de intercalar vários parênteses em seus períodos. Como se fosse necessário (às vezes é, mas eles exageram essa preocupação) fazer contínuas ressalvas às próprias ideias (mesmo as que já se tornaram claras para o leitor). Eles têm receio de que seu discurso (que eles supõem, geralmente, traduzir uma mensagem valiosa e útil) não seja suficientemente vigoroso (e sobretudo claro, inteligível).

Há os que não resistem ao excessivo emprego dos: dois pontos. Esses parecem estar sempre preparando: uma surpresa, um desenlace inesparado para o leitor. Que acaba deixando de se surpreender, pois os dois pontos terminam, previsíveis, constituindo: uma espécie de alerta falso. E já deixam o leitor: de orelha em pé.

Há, enfim, os obreiros da vírgula, que, numa espécie de afã asmático, virgulam, com disciplina espartana, sempre que a norma determina. A esses, pouco importa que o sentido se torne claro, no próprio fluir da corrente verbal. Se a regra manda, mesmo, contra o ritmo natural da fala, eles, prestos e soldados, vão largando, a intervalos breves, curtíssimos, as suas vírgulas, que, para o leitor, equivalem a pedregulhos, ou valas, ou, enfim, a obstáculos, que dificultam o, já difícil, ato de ler.

E tu, leitor, qual o teu ritmo? Como é que, lendo ou escrevendo, tu respiras?

O homem e a imortalidade

Cientistas estão desenvolvendo pesquisas para nos tornar imortais. Não sei se a imortalidade seria boa para nós. O fim é que dá sentido ao começo, e sem a morte não há como entender a vida. Aspiramos à eternidade como uma fantasia que se contrapõe ao nosso desamparo e às nossas inquietações; vivenciá-la fora do plano imaginativo nos faria perder o medo de morrer. Sem esse medo não mais teríamos por que rezar, filosofar ou produzir obras de arte (não tem sentido alguns quererem ficar na memória dos homens se ninguém vai perecer). Além de uma aberração biológica, a imortalidade nos traria um grande prejuízo existencial. No dia em que ela nos tornasse imunes ao fim, eu não quereria estar vivo.

Pinker e o estilo clássico

“Guia de escrita: como conceber um texto com clareza, beleza e precisão” (Editora Contexto) é das melhores coisas que li sobre a arte de redigir. Com base em postulados da neurolinguística, o autor nos apresenta os princípios do chamado “estilo clássico”.  

Entre as diretrizes desse estilo está o emprego da ordem direta, a fuga às abstrações (“O estilo clássico minimiza as abstrações, que não podem ser vistas a olho nu”), a preferência por verbos, a recusa ao emprego dos chamados “substantivos zumbis”, que tendem a “esconder” os responsáveis pelas ações (corrijo muito essa prática nas redações dos vestibulandos, que escrevam frases do tipo: “É preciso mudança e renovação no nosso sistema de ensino”, sem informar quem deve fazer tais mudanças e, sobretudo, em que elas consistem).   

Há também no livro ótimas observações sobre o uso da voz passiva (às vezes injustamente estigmatizada) e sobre os perigos da “maldição do conhecimento”, que consiste em achar que o leitor é capaz de entender conceitos ou nomenclaturas de determinadas áreas.  Esse mal acomete muito os intelectuais e não raro os leva à obscuridade, com que buscam disfarçar um falso saber.

Arcaísmos

Essa história aconteceu no tempo do ronca. Conta-se que um mancebo sem eira nem beira propendia a namorar uma donzela de truz. Para isso usava toda a sua léria, mas o pai da moça se opunha por achar que ele era um mandrião. Não se ocupava em nada que lhe trouxesse algum tipo de estipêndio.

O moço intentava convolar de estado civil — mas como, se mais parecia um mequetrefe?

O pai então lhe lançou um repto: ele casaria com a sua filha se jungisse a tal desiderato a demonstração de que não era um soez.

— E o que devo fazer? — quis saber o rapaz.

— Deves dar-me a prova de que tens futuro.

Em meio a tão escorchante desafio, o moço foi aos poucos sentindo gorarem-se-lhe as pretensões. Não era nenhum abilolado e percebeu que o queriam apartar da contenda. Caminhou a esmo na noite até que, esfalfado, resolveu tomar um pifão. Quando a ebriedade lhe turvou o bestunto, dirigiu-se à casa da moça.

Postado em frente à alcova onde ela dormia, encetou uma elocução: ”Não tenho prebenda, mas não sou nenhum sorrelfa. Juntos, viveríamos com parcimônia, mas não à míngua. Juro-to.

A moça, já adormecida, despertou num sobressalto. Colocou furibunda o corselete, que preferia ao califom, e foi até a janela:

— Arreda-te, doidivanas. Não vês que nada ganhas com tais ululações? Além disso, tiraste-me dos braços de Morfeu.

— Morfeu?! Então tens outro… Por que não me falaste? — gorgolejou o rapaz, já pensando em cascar a marreta. Mas logo tirou da cabeça essa ideia, pois no fundo era um poltrão.

— Se não sabes quem é Morfeu, com isso apenas provas a tua estultice. E dás razão a meu pai… – observou a moça. Dito isso, fechou com estrépito a janela.

O rapaz foi embora achando-se um alarve. Ao mesmo tempo, sentia-se ditoso por haver descoberto a traição. Melhor saber-se guampudo agora do que depois.

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Em “O circo da vida” (https://ocircodavidachicoviana.blogspot.com/

Sobre a queixa

Toda queixa é agressão. O queixoso agride invocando a própria infelicidade para provocar culpa nos outros. Ao atribuir aos outros a responsabilidade por seu sofrimento, exime-se de resolvê-lo por si mesmo. Ele cultiva uma espécie de espécie de narcisismo masoquista, que só faz perdurar a aflição. Não se importa de sofrer, contanto que torne visível aos outros o espetáculo da sua dor.

A palavra mais longa

A revista Língua Portuguesa (Segmento) fez uma pesquisa para saber qual a maior palavra do português. Quem pensou que ganharia “anticonstitucionalissimamente” se enganou. Essa ficou em segundo lugar, com 29 letras.

A campeã foi “pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico”. Ela tem 46 letras e designa “quem caiu doente por aspirar cinzas de um vulcão”.

Escrever e pensar

A gente pensa para escrever ou escreve para pensar? As duas coisas. O propósito de dizer algo faz com que persigamos o que deve ser dito, e isso ativa o fulcro das ideias. Assim, pensamos mais. O esforço tem também a vantagem de nos conduzir a verdades até então inconscientes.