Van Gogh

Uma das funções da arte é reinventar a Natureza. É infundir-lhe alma, tornando-a uma representação dos conflitos humanos. Em poucos artistas se vê isso com tanta eloquência como em Van Gogh. É surpreendente a energia com que o pintor representa flores, objetos, figuras humanas. Ele procura captar não a aparência reconhecível, mas a dimensão profunda do que é representado e vem a traduzir seus próprios temores e obsessões. Como escreveu ao irmão Theo, num rosto importam menos os traços do que a expressão. Existe uma energia latente nos elementos da Natureza, e cabe ao artista expressá-la. Van Gogh o faz em pinceladas vibrantes e de uma rara densidade cromática. Estar diante de uma tela dele nos ajuda a entender por que Dostoiévski disse que a Beleza salvaria o mundo.

(Amsterdã, 05 de julho de 2018)

Solidão cósmica

Ad Astra (Rumo às estrelas) é um filme sobre a solidão. A cósmica solidão humana. O personagem principal (interpretado por um compenetrado Brad Pitt) é convocado a procurar o pai, que há mais de duas décadas saíra numa missão encarregada de descobrir vida fora da Terra. Pensava-se que ele tivesse morrido, mas havia indícios de que isso não ocorrera, e o filho termina incumbido de apurar a verdade.

O filme associa dois valores estruturantes do nosso equilíbrio psicológico: a figura do pai e a visão de um

além (representada pela perspectiva de existir vida fora da Terra). A ausência de um deles (ou de ambos, como acontece ao protagonista) costuma intensificar o sentimento de solidão. O personagem se depara com um pai “perdido” e preso à culpa de ter malogrado em sua tentativa de encontrar extraterrestres.

Mas a mensagem do filme é positiva: se estamos sós, devemos procurar a salvação em nós mesmos. Não existe alternativa senão a compreensão e o amor. Essa verdade constitui um apelo ao entendimento e à compreensão, numa época em que parece vez maior a hostilização entre os povos. Ou nos entendemos, ou retornamos à barbárie exemplificada nos símios que invadem a nave onde estão Pitt e seus colegas. Aqueles macacos constituem uma grotesca alegoria do que poderemos ser no futuro. Está dado o aviso!

Proust e o homessexualismo

Em “Sodoma e Gomorra” – terceiro volume de “Em busca do tempo perdido –, Proust faz nas primeiras páginas uma caracterização exaustiva do homossexualismo, buscando entender (e explicar) a psique do que chama de “homens-mulheres” e “mulheres-homens”.

Uma pílula retirada da página 29: “Toda criatura busca seu prazer, e, se essa criatura não é por demais viciosa, busca-o num sexo oposto ao seu. E para o invertido o vício começa (…) quando (…) busca o seu prazer nas mulheres.”

Ele usa o termo “vício”, que hoje pode soar politicamente incorreto. Mas usa-o como Freud usa “perversão”, ou seja, com um propósito mais descritivo, ou analítico, do que moral.

Argumento de amor

Ninguém tem de si uma ideia muito boa para amar o próximo por este lhe ser semelhante. Se o mandamento fosse outro, impressionaria mais. Por exemplo: “ame o próximo que seja melhor do que você”. Como tendemos a nos igualar a quem amamos, esse argumento teria grande força persuasiva. Amaríamos para sair um pouco de nós e absorver o que há de bom no outro.

O personagem que cada um é

Todo homem é mais do que “seu” personagem, por isso evite se confundir com o personagem que você é (palhaço, juiz, cínico, piedoso…). Esse tipo de confusão tipifica e estigmatiza. E sobretudo impede que emerjam outros traços da sua personalidade, pois ninguém é uma coisa só.

Discurso e verdade

Muitos tendem a julgar a opinião de quem escreve como “a última palavra”. Acham que ele é um porta-voz da “verdade”. Quem pensa assim esquece que o compromisso do escritor é sobretudo com a linguagem e que  a verdade do discurso não é necessariamente o discurso da verdade.

Feiura ideal

Fala-se muito na beleza ideal, mas pouco se comenta a feiura ideal. Até nesse aspecto, coitados, os feios sofrem preconceito. Deve ser porque diante dos feios levamos o que se convencionou chamar “choque de realidade”. Nesse caso a feiura seria, digamos, mais sincera, enquanto que na beleza haveria muito de miragem. A beleza é uma promessa de felicidade, como diz Flaubert, e promessas nem sempre se cumprem.

“Bacurau” (contém spoiler)

“Bacurau” é uma alegoria sobre o nosso subdesenvolvimento. Uma espécie de “Terra em transe Hi Tech”, pois nele os bandidos usam drones e os habitantes da cidade que dá título ao filme têm telefones celulares (mas num momento crucial de suas vidas não conseguem se comunicar com ninguém e se tornam socialmente invisíveis – tão remotos como se fossem observados do espaço sideral).

A trama é secundária em relação às contrastantes imagens dos despossuídos de dinheiro e poder. Eles vivem como animais, cultivando a nudez despudorada e a sexualidade promíscua. Afinal de contas, não existe pecado do lado de baixo do Equador. A religiosidade encarnada na mulher cujo velório se celebra no início do filme apenas confirma a alienação da maioria dos habitantes, que (evocando o pássaro que dá nome à cidade) parecem viver no escuro.

Essa mulher era para o povo uma espécie de bastião das virtudes, no entanto, a julgar pelas palavras da médica que a descompõe em plena vigília fúnebre, não passa de um logro. Interpretada por Sônia Braga, a médica é um dos personagens mais interessantes do filme. Alcoólatra, está de porre quando diz conhecer na intimidade a morta que o povo ingenuamente cultua. Mas não há por que duvidar de suas palavras; bêbados costumam dizer a verdade. A professora ilustra a ambiguidade moral que impera na cidade ao transformar um cômodo da escola em motel (ou talvez num bordel; isso lá faz pouca diferença).

A cidade tem um museu que a orgulha, mas nada lucra com ele. O prefeito demagogo, do qual se poderia esperar estímulo à cultura e ao turismo, é mancomunado com os estrangeiros que começam a invadir o lugar. Nessa invasão há um óbvio simbolismo, mesmo que o chefe do grupo seja um alemão e não um… norte-americano.  O que o filme tematiza, no fundo, é a velha dicotomia imperialismo versus subdesenvolvimento; exploradores versus explorados. Mas tal simplificação não empobrece a obra, graças à criatividade das imagens e a um roteiro em que se associa o naturalismo sintonizado com a mundividência dos habitantes a algumas notas de humor.

O final sanguinário é uma espécie de acerto de contas. Não se sabe como o negro e a mulher de úberes portentosos (referência felliniana em que a sexualidade dá lugar à força nutriz) têm acesso às armas com que mutilam os estrangeiros. Pouco importa, pois o que conta é o desafogo da revanche, que coroa o ressentimento (ou melhor, o ódio) contra o inimigo invasor.  Mas a maior catarse é propiciada pelo destino dado ao prefeito, cuja hipocrisia e desonestidade evocam os nossos maus políticos. Seu banimento entre protestos inúteis provoca risos e aplausos da plateia. É uma imagem com a qual ninguém no cinema deixa de se rejubilar.

Exageros

Fazia um luar tão intenso, que as pessoas saíam à rua de óculos escuros.

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Ela cheirava tão mal que, quando começou a se abanar, não ficou ninguém na sala.

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A bebida tinha um gosto tão ruim, que era servida com um kit para vômito.

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Ela tinha uma língua tão comprida que, quando beijava o namorado, provocava nele uma crise de tosse.

Pintar o cabelo

Não tenho nada contra quem pinta o cabelo. É louvável o esforço de querer parecer mais jovem, driblar os anos. O problema é que às vezes se carrega na tinta. O resultado é não apenas feio como também revelador.

O ideal seria esconder o artifício, negar que o tingimento é fingimento. Como não se faz isso, o efeito chega às vezes a ser grotesco.