Pinker e o estilo clássico

“Guia de escrita: como conceber um texto com clareza, beleza e precisão” (Editora Contexto) é das melhores coisas que li sobre a arte de redigir. Com base em postulados da neurolinguística, o autor nos apresenta os princípios do chamado “estilo clássico”.  

Entre as diretrizes desse estilo está o emprego da ordem direta, a fuga às abstrações (“O estilo clássico minimiza as abstrações, que não podem ser vistas a olho nu”), a preferência por verbos, a recusa ao emprego dos chamados “substantivos zumbis”, que tendem a “esconder” os responsáveis pelas ações (corrijo muito essa prática nas redações dos vestibulandos, que escrevam frases do tipo: “É preciso mudança e renovação no nosso sistema de ensino”, sem informar quem deve fazer tais mudanças e, sobretudo, em que elas consistem).   

Há também no livro ótimas observações sobre o uso da voz passiva (às vezes injustamente estigmatizada) e sobre os perigos da “maldição do conhecimento”, que consiste em achar que o leitor é capaz de entender conceitos ou nomenclaturas de determinadas áreas.  Esse mal acomete muito os intelectuais e não raro os leva à obscuridade, com que buscam disfarçar um falso saber.

Arcaísmos

Essa história aconteceu no tempo do ronca. Conta-se que um mancebo sem eira nem beira propendia a namorar uma donzela de truz. Para isso usava toda a sua léria, mas o pai da moça se opunha por achar que ele era um mandrião. Não se ocupava em nada que lhe trouxesse algum tipo de estipêndio.

O moço intentava convolar de estado civil — mas como, se mais parecia um mequetrefe?

O pai então lhe lançou um repto: ele casaria com a sua filha se jungisse a tal desiderato a demonstração de que não era um soez.

— E o que devo fazer? — quis saber o rapaz.

— Deves dar-me a prova de que tens futuro.

Em meio a tão escorchante desafio, o moço foi aos poucos sentindo gorarem-se-lhe as pretensões. Não era nenhum abilolado e percebeu que o queriam apartar da contenda. Caminhou a esmo na noite até que, esfalfado, resolveu tomar um pifão. Quando a ebriedade lhe turvou o bestunto, dirigiu-se à casa da moça.

Postado em frente à alcova onde ela dormia, encetou uma elocução: ”Não tenho prebenda, mas não sou nenhum sorrelfa. Juntos, viveríamos com parcimônia, mas não à míngua. Juro-to.

A moça, já adormecida, despertou num sobressalto. Colocou furibunda o corselete, que preferia ao califom, e foi até a janela:

— Arreda-te, doidivanas. Não vês que nada ganhas com tais ululações? Além disso, tiraste-me dos braços de Morfeu.

— Morfeu?! Então tens outro… Por que não me falaste? — gorgolejou o rapaz, já pensando em cascar a marreta. Mas logo tirou da cabeça essa ideia, pois no fundo era um poltrão.

— Se não sabes quem é Morfeu, com isso apenas provas a tua estultice. E dás razão a meu pai… – observou a moça. Dito isso, fechou com estrépito a janela.

O rapaz foi embora achando-se um alarve. Ao mesmo tempo, sentia-se ditoso por haver descoberto a traição. Melhor saber-se guampudo agora do que depois.

____

Em “O circo da vida” (https://ocircodavidachicoviana.blogspot.com/

Sobre a queixa

Toda queixa é agressão. O queixoso agride invocando a própria infelicidade para provocar culpa nos outros. Ao atribuir aos outros a responsabilidade por seu sofrimento, exime-se de resolvê-lo por si mesmo. Ele cultiva uma espécie de espécie de narcisismo masoquista, que só faz perdurar a aflição. Não se importa de sofrer, contanto que torne visível aos outros o espetáculo da sua dor.

A palavra mais longa

A revista Língua Portuguesa (Segmento) fez uma pesquisa para saber qual a maior palavra do português. Quem pensou que ganharia “anticonstitucionalissimamente” se enganou. Essa ficou em segundo lugar, com 29 letras.

A campeã foi “pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico”. Ela tem 46 letras e designa “quem caiu doente por aspirar cinzas de um vulcão”.

Escrever e pensar

A gente pensa para escrever ou escreve para pensar? As duas coisas. O propósito de dizer algo faz com que persigamos o que deve ser dito, e isso ativa o fulcro das ideias. Assim, pensamos mais. O esforço tem também a vantagem de nos conduzir a verdades até então inconscientes.

Van Gogh

Uma das funções da arte é reinventar a Natureza. É infundir-lhe alma, tornando-a uma representação dos conflitos humanos. Em poucos artistas se vê isso com tanta eloquência como em Van Gogh. É surpreendente a energia com que o pintor representa flores, objetos, figuras humanas. Ele procura captar não a aparência reconhecível, mas a dimensão profunda do que é representado e vem a traduzir seus próprios temores e obsessões. Como escreveu ao irmão Theo, num rosto importam menos os traços do que a expressão. Existe uma energia latente nos elementos da Natureza, e cabe ao artista expressá-la. Van Gogh o faz em pinceladas vibrantes e de uma rara densidade cromática. Estar diante de uma tela dele nos ajuda a entender por que Dostoiévski disse que a Beleza salvaria o mundo.

(Amsterdã, 05 de julho de 2018)

Solidão cósmica

Ad Astra (Rumo às estrelas) é um filme sobre a solidão. A cósmica solidão humana. O personagem principal (interpretado por um compenetrado Brad Pitt) é convocado a procurar o pai, que há mais de duas décadas saíra numa missão encarregada de descobrir vida fora da Terra. Pensava-se que ele tivesse morrido, mas havia indícios de que isso não ocorrera, e o filho termina incumbido de apurar a verdade.

O filme associa dois valores estruturantes do nosso equilíbrio psicológico: a figura do pai e a visão de um

além (representada pela perspectiva de existir vida fora da Terra). A ausência de um deles (ou de ambos, como acontece ao protagonista) costuma intensificar o sentimento de solidão. O personagem se depara com um pai “perdido” e preso à culpa de ter malogrado em sua tentativa de encontrar extraterrestres.

Mas a mensagem do filme é positiva: se estamos sós, devemos procurar a salvação em nós mesmos. Não existe alternativa senão a compreensão e o amor. Essa verdade constitui um apelo ao entendimento e à compreensão, numa época em que parece vez maior a hostilização entre os povos. Ou nos entendemos, ou retornamos à barbárie exemplificada nos símios que invadem a nave onde estão Pitt e seus colegas. Aqueles macacos constituem uma grotesca alegoria do que poderemos ser no futuro. Está dado o aviso!

Proust e o homessexualismo

Em “Sodoma e Gomorra” – terceiro volume de “Em busca do tempo perdido –, Proust faz nas primeiras páginas uma caracterização exaustiva do homossexualismo, buscando entender (e explicar) a psique do que chama de “homens-mulheres” e “mulheres-homens”.

Uma pílula retirada da página 29: “Toda criatura busca seu prazer, e, se essa criatura não é por demais viciosa, busca-o num sexo oposto ao seu. E para o invertido o vício começa (…) quando (…) busca o seu prazer nas mulheres.”

Ele usa o termo “vício”, que hoje pode soar politicamente incorreto. Mas usa-o como Freud usa “perversão”, ou seja, com um propósito mais descritivo, ou analítico, do que moral.

Argumento de amor

Ninguém tem de si uma ideia muito boa para amar o próximo por este lhe ser semelhante. Se o mandamento fosse outro, impressionaria mais. Por exemplo: “ame o próximo que seja melhor do que você”. Como tendemos a nos igualar a quem amamos, esse argumento teria grande força persuasiva. Amaríamos para sair um pouco de nós e absorver o que há de bom no outro.