Feiura ideal

Fala-se muito na beleza ideal, mas pouco se comenta a feiura ideal. Até nesse aspecto, coitados, os feios sofrem preconceito. Deve ser porque diante dos feios levamos o que se convencionou chamar “choque de realidade”. Nesse caso a feiura seria, digamos, mais sincera, enquanto que na beleza haveria muito de miragem. A beleza é uma promessa de felicidade, como diz Flaubert, e promessas nem sempre se cumprem.

“Bacurau” (contém spoiler)

“Bacurau” é uma alegoria sobre o nosso subdesenvolvimento. Uma espécie de “Terra em transe Hi Tech”, pois nele os bandidos usam drones e os habitantes da cidade que dá título ao filme têm telefones celulares (mas num momento crucial de suas vidas não conseguem se comunicar com ninguém e se tornam socialmente invisíveis – tão remotos como se fossem observados do espaço sideral).

A trama é secundária em relação às contrastantes imagens dos despossuídos de dinheiro e poder. Eles vivem como animais, cultivando a nudez despudorada e a sexualidade promíscua. Afinal de contas, não existe pecado do lado de baixo do Equador. A religiosidade encarnada na mulher cujo velório se celebra no início do filme apenas confirma a alienação da maioria dos habitantes, que (evocando o pássaro que dá nome à cidade) parecem viver no escuro.

Essa mulher era para o povo uma espécie de bastião das virtudes, no entanto, a julgar pelas palavras da médica que a descompõe em plena vigília fúnebre, não passa de um logro. Interpretada por Sônia Braga, a médica é um dos personagens mais interessantes do filme. Alcoólatra, está de porre quando diz conhecer na intimidade a morta que o povo ingenuamente cultua. Mas não há por que duvidar de suas palavras; bêbados costumam dizer a verdade. A professora ilustra a ambiguidade moral que impera na cidade ao transformar um cômodo da escola em motel (ou talvez num bordel; isso lá faz pouca diferença).

A cidade tem um museu que a orgulha, mas nada lucra com ele. O prefeito demagogo, do qual se poderia esperar estímulo à cultura e ao turismo, é mancomunado com os estrangeiros que começam a invadir o lugar. Nessa invasão há um óbvio simbolismo, mesmo que o chefe do grupo seja um alemão e não um… norte-americano.  O que o filme tematiza, no fundo, é a velha dicotomia imperialismo versus subdesenvolvimento; exploradores versus explorados. Mas tal simplificação não empobrece a obra, graças à criatividade das imagens e a um roteiro em que se associa o naturalismo sintonizado com a mundividência dos habitantes a algumas notas de humor.

O final sanguinário é uma espécie de acerto de contas. Não se sabe como o negro e a mulher de úberes portentosos (referência felliniana em que a sexualidade dá lugar à força nutriz) têm acesso às armas com que mutilam os estrangeiros. Pouco importa, pois o que conta é o desafogo da revanche, que coroa o ressentimento (ou melhor, o ódio) contra o inimigo invasor.  Mas a maior catarse é propiciada pelo destino dado ao prefeito, cuja hipocrisia e desonestidade evocam os nossos maus políticos. Seu banimento entre protestos inúteis provoca risos e aplausos da plateia. É uma imagem com a qual ninguém no cinema deixa de se rejubilar.

Exageros

Fazia um luar tão intenso, que as pessoas saíam à rua de óculos escuros.

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Ela cheirava tão mal que, quando começou a se abanar, não ficou ninguém na sala.

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A bebida tinha um gosto tão ruim, que era servida com um kit para vômito.

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Ela tinha uma língua tão comprida que, quando beijava o namorado, provocava nele uma crise de tosse.

Pintar o cabelo

Não tenho nada contra quem pinta o cabelo. É louvável o esforço de querer parecer mais jovem, driblar os anos. O problema é que às vezes se carrega na tinta. O resultado é não apenas feio como também revelador.

O ideal seria esconder o artifício, negar que o tingimento é fingimento. Como não se faz isso, o efeito chega às vezes a ser grotesco.  

Sobre o riso

           O riso denota uma alegre resignação diante do desespero. Ele pode existir mesmo no limite, quando não há mais saída. Ao pular de um prédio, o palhaço sonha fazer uma acrobacia para divertir quem porventura acompanhe sua queda. E o humorista deixa um bilhete para os familiares:

         — Vou dar um pulinho lá fora e não volto.

Nostalgia e melancolia

Nostalgia e melancolia não são a mesma coisa. Distinguem-se em pelo menos três pontos:

1 – A nostalgia é a saudade do que se teve. A melancolia é a saudade do que não se teve.

2 – A nostalgia é histórica, não existe sem uma prévia convivência com o objeto perdido. A melancolia é mítica; o objeto perdido, nesse caso, é sobretudo um ideal.

3 – A nostalgia pressupõe uma perda. A melancolia pressupõe uma falta.

Exemplo de nostalgia: Gonçalves Dias na “Canção do Exílio”. O poeta está em Portugal e tem saudades do Brasil, onde viveu.

Exemplo de melancolia: Augusto dos Anjos em poemas como “As cismas do Destino” ou “A ilha de Cipango”, nos quais fantasia o mítico retorno à “Pátria da homogeneidade” (que é um espaço ideal, onde obviamente ele nunca esteve).

A força da imagem

A imagem é o ingrediente fundamental da poesia, que se define como um discurso por imagens. Mas ela também aparece na prosa e mesmo no discurso cotidiano, informal. Um dos seus papéis, nesse caso, é concretizar noções abstratas.

Quando explico isso em classe, costumo dar como exemplo um instrutor de autoescola que quer mostrar ao aluno a melhor maneira de segurar a direção. Ele pode dizer mais ou menos o seguinte: “Considere que a direção é uma esfera cortada por duas linhas, uma longitudinal e outra transversal. Suas mãos devem se apoiar na parte superior dessa esfera e se afastar cerca de 10 graus do eixo longitudinal…”.

O aluno, claro, não ia entender coisa nenhuma e talvez procurasse outra autoescola.

Suponha agora que, em vez daquela explicação abstrata, o instrutor disesse: “Dirija em dez e dez”. Pronto. Fez-se a luz. A analogia com os ponteiros do relógio marcando dez e dez dá ao aluno a imagem nítida, concreta, de como ele deve posicionar as mãos no volante.

         Só de teimoso ele vai, por exemplo, dirigir em “seis e meia”… Mas aí a culpa já não será do instrutor.

O “psicológico”

Outro dia na televisão ouvi alguém dizer que é preciso entender “o psicológico” dos jovens. Alto lá! “Psicológico” é adjetivo, e não substantivo. Aparece bem em locuções como “nível psicológico” “distúrbio psicológico” etc. O que é preciso é entender “a psique”, “a mente”, “o psiquismo”, “a psicologia” dos jovens.

         Lembrei-me agora de um aluno que, numa redação, referiu-se ao “psico” dos adolescentes! Esse também não dá. “Psico” é forma presa, só aparece em compostos (psicoativo, psicolinguística etc.).

Hipálage

Quando eu era pequeno, ouvi falar de um “paletó para homem lascado atrás”. As pessoas diziam isso e riam. Eu, claro, não conseguia entender. Sempre me lembro dessa frase quando penso na hipálage, figura sintática que representa um “deslocamento de atribuição”.

A hipálage pode ser um recurso literário, como nesta passagem: “Fiquei olhando o voo branco das garças”, em vez de “O voo das garças brancas”. O deslocamento do adjetivo “branco” (de “garças” para “voo”) enriquece visualmente a imagem.

Voltando à minha lembrança. O normal é: “paletó lascado atrás para homem”. O problema é que, nessa ordem, desfaz-se a malícia — e com ela, a graça.

Poesia e loucura

Fiz até o quarto ano de Medicina. Quando pagava Psiquiatria, o professor levou a turma para ouvir o depoimento de um paciente que saía de uma crise psicótica.

O paciente não estava totalmente curado, mas tinha alguma consciência do que passara. Contou uma série de detalhes que eu já esqueci.  Mas me lembro do que disse para explicar como se livrara de um delírio: “Torei a escuridão”.

 “Torar a escuridão”. Isso é uma imagem (uma representação figurada), mas ele lhe atribuía um sentido literal. Explica-se: o psicótico não sonha nem metaforiza (é a chamada delusão). Para ele, “torar a escuridão” é mesmo quebrar alguma coisa escura…

 Isso me fez pensar que a loucura é uma poesia doente, assim como a poesia é uma loucura sã.