No dia 2 de junho de 2004, dei a primeira aula no “Curso Chico Viana”. De lá para cá foram dezessete anos de um trabalho compensador. Pelo curso passaram mais de 1.200 alunos, parte deles já formada em cursos concorridos como Medicina, Engenharia, Direito (fico feliz quando me dizem que a produção textual ajudou na aprovação). Foram cerca de 40.000 redações corrigidas e a pesquisa de um material que vem abastecendo dois blogs – um pessoal, o outro no site da revista “Língua Portuguesa”. A ressonância desse trabalho nos rendeu convite para participar de um debate em rede nacional sobre a redação no Enem.

A história do curso é também a história dos seus slogans. Prefiro relembrá-los a apagar velinhas: “Competência a toda prova.” “Uma escolha de expressão.” “Você e o Curso Chico Viana. Essa história vai dar um bom texto.” “Não dá pra passar sem ele.” (esse acabou figurando na logomarca por escolha dos alunos), “Experiência que aprova.”

Calma, não pensem que com a comemoração de hoje vai aparecer algo como “Curso Chico Viana é dez.” Essa meta é dos alunos, e por ela continuaremos a trabalhar com a dedicação que tem sido a marca de todos esses anos. Uma dedicação, por sinal, que não teria frutificado sem o apoio de Denise, minha mulher, e da secretária Nízia Maria Clara.

A cidade volta ao nível laranja, com restrições ao fluxo de pessoas nas praias. Quem circulou pela orla do Cabo Branco nos últimos dias não se surpreende com a medida: muita gente sem máscara circulava pelo calçadão e se agrupava nos quiosques.

É surpreendente o desprezo das pessoas por essa medida mínima de segurança. Nem parece que circula no ar um vírus que se transmuta em variantes cada vez mais contagiosas e letais. É como se colocar a máscara replicasse o gesto “idiota” de ficar em casa ironizado pelo presidente — esse baluarte da teimosia e da estupidez.

O Sertão já tem cidades cujos hospitais não podem receber pacientes. Está na iminência de “virar mar” — mas não no sentido de utopia regeneradora associado a essa expressão. Seria antes um mar de cadáveres.

Cientistas estão desenvolvendo pesquisas para nos tornar imortais. Não sei se a imortalidade seria um bem para nós. O fim

é que dá sentido ao começo, e sem a morte não há como entender a vida. Aspiramos à eternidade como uma fantasia que se contrapõe ao nosso desamparo e às nossas inquietações; vivenciá-la fora do plano imaginativo nos faria perder o medo de morrer. Sem esse medo não mais teríamos por que rezar, filosofar ou produzir obras de arte (não tem sentido alguns quererem ficar na memória dos homens se ninguém vai perecer). Além de uma aberração biológica, a imortalidade nos traria um grande prejuízo existencial. No dia em que a ciência fosse capaz de propiciá-la a nós, eu preferiria mesmo não estar vivo.

Cientistas estão desenvolvendo pesquisas para nos tornar imortais. Não sei se a imortalidade seria um bem para nós. O fim

é que dá sentido ao começo, e sem a morte não há como entender a vida. Aspiramos à eternidade como uma fantasia que se contrapõe ao nosso desamparo e às nossas inquietações; vivenciá-la fora do plano imaginativo nos faria perder o medo de morrer. Sem esse medo não mais teríamos por que rezar, filosofar ou produzir obras de arte (não tem sentido alguns quererem ficar na memória dos homens se ninguém vai perecer). Além de uma aberração biológica, a imortalidade nos traria um grande prejuízo existencial. No dia em que a ciência fosse capaz de propiciá-la a nós, eu preferiria mesmo não estar vivo.

O vírus e a fé

Foto por Magda Ehlers em Pexels.com

Hoje completo 70 anos, mas a culpa não é minha. Por mim eu teria ficado nos cinquenta, que é o limite entre o vigor e um presumível início de decrepitude. O tempo deve ter me trazido até aqui para mostrar o quanto a gente se modifica e permanece o mesmo com o avanço da idade.

           Se o menino é pai do homem, como disse Machado, o velho é um rebento pouco promissor da maturidade. Ele se enriquece em experiência mas, a partir de certo momento, também em ineficiência. Detém um saber que não lhe será útil para muita coisa, a não ser para se consolar do que não pode mais fazer.

          Há um ano, eu lamentava comemorar os 69 em tempos de pandemia. Não imaginava que aos 70 me depararia com uma situação idêntica – ou talvez pior. O número de mortes já era grande, mas se avolumou a ponto de abarcar amigos e conhecidos. O que foi feito nesses 365 dias para controlar a infecção? Pela forma como ela veio se propagando, muito pouco ou quase nada.

           No entanto, fiz a minha parte. Fiquei em casa, usei máscara, lavei as mãos e não me aglomerei. O que não pude foi impedir que o vírus se multiplicasse enquanto eu envelhecia mais um ano. Resistimos, ambos – ele como um espectro velado, eu como uma vítima em potencial. Agora que estou em processo de vacinação (esperando a segunda dose da Coronavac), torço para me livrar da sua ameaça agressiva e mutante. Mesmo isso acontecendo, não poderei repor o que o coronavírus me subtraiu de serenidade e alegria.

          Por que falar nele numa data como esta? Porque sem o vírus a comemoração seria diferente. Eu estaria, como em anos anteriores, confraternizando com as pessoas da minha afeição. Em prazerosa aglomeração familiar. O vírus nos impõe a distância e empurra cada um para dentro de si mesmo. Suprime-nos o convívio, que num dia como hoje é fundamental. Quisera estar ingerindo outro tipo de “dose”, mais inebriante e festiva do que a que deverá ser aplicada em meu braço. Mas, pensando bem, no atual momento esse ainda é o melhor presente que posso receber.

              Com o passar do tempo, o problema maior não é ter planos para o futuro. É ter futuro para pôr em prática os planos que a gente faz. Nestes tempos de pandemia e de querelas políticas que só retardam a erradicação do vírus, meu projeto mais caro é sobreviver. E poder, com fé, comemorar outros aniversários.  

Hoje, 20 de abril, Augusto dos Anjos completaria 137 anos. Seu único livro, “Eu”, foi recebido com estranheza devido à sua singularidade. No entanto, mesmo quem se surpreendeu com a sonoridade áspera e o vocabulário por vezes impenetrável, viu naqueles versos as marcas de uma poesia vigorosa e, a seu modo, bela. O “Eu” surgiu num momento em que Parnasianismo e Simbolismo conviviam, mas a rigor não se filia a nenhuma dessas escolas. Os historiadores terminaram incluindo-o no Pré-Modernismo. Augusto fala em morte, vermes, esqueleto, mas também tem olhos para o espetáculo da vida. Em muitos de seus poemas longos, às elucubrações tristonhas sucede a descrição do nascer do sol, que injeta seiva em plantas e bichos. O poeta se entusiasma com os fenômenos vitais e vê o homem, a despeito da mágoa (mácula) que o deprime, como um produto da energia recriadora da Natureza.

escritossobreaugustodosanjos.wordpress.com