Ano-Novo e reconciliação

As grandes datas têm sobretudo um valor simbólico. É o caso do Ano-Novo, que em essência não muda nada mas nos dá a impressão de que alguma coisa recomeça.

Todo ano a mais é um sinal de envelhecimento, mas insistimos em pensar que um novo tempo nasce à medida que outro morre. Em vez de sucessão, renovação. Na ingênua alegoria do nosso desejo, o Ano-Novo aparece como um bebê rechonchudo e risonho que vem substituir um velhinho magro e decrépito.

Ambos são imagens de nós mesmos. A segunda corresponde ao nosso eu real; a primeira, à fantasia com que julgamos renascer melhores, sem os velhos vícios e defeitos. A cada ano se renova o ciclo, com promessas que não são cumpridas e projetos que jamais viram realidade.

Precisamos dessas transições pomposas para nelas enquadrar nossos propósitos de mudança. Qual a graça em se deixar de fumar num dia qualquer? Faz mais efeito pensar que o abandono do cigarro vai ocorrer em um ano que se inicia. E que a partir do Ano-Novo nos transmutaremos num “novo homem”.

Assim como uns vão deixar o cigarro, outros prometem estudar com afinco para concursos. Ou mudar de profissão. Ou pedir finalmente a namorada em casamento. Mesmo que nada disso seja feito, este é o momento de sonhar “a sério” com a possibilidade.

As disposições mais comuns dizem respeito aos hábitos e ao caráter. Quem não promete a partir de agora se tornar mais generoso, humilde, disciplinado?  Quem não vai moderar o egoísmo e desenvolver o senso de solidariedade? Quem não se tornará no próximo ano um ser humano melhor?

Para isso existe a data, e não adianta reagir com cinismo a tão sinceras deliberações. É preciso que vez por outra uma imagem ideal de nós mesmos ocupe o lugar do que somos. Essa ilusão de aperfeiçoamento e mudança nos anima a enfrentar o ano que vem. E, sobretudo, a nos reconciliar provisoriamente com nós mesmos.

Que mistério tem Clarice?

Uma pausa, leitor. Hoje não se fala de pacote, de violência ou de praia suja. Estes são assuntos urgentes e práticos, que antes nos demandam ação do que reflexão. E o mundo não se conserta mesmo. Vamos dar um tempo a essa agitação frívola, nociva tanto ao corpo quanto à alma, e conversar com alguém muito especial. E ouvir coisas certamente profundas sobre os mistérios da  vida e do ser.

Isso te assusta e agride? Deixa de ser tolo. A vida é cheia de mistério e não é por negá-lo, querendo em tudo o raso e o chão, que ele se arredará de ti. Não vires a página; fica. E vamos conversar com Clarice Lispector. Foi numa tarde de domingo que ela visitou o meu escritório. Nessa ocasião, como sabes, algumas pessoas estão na igreja, outras nos bares, outras apenas sozinhas – esperando que o domingo passe. Clarice veio sem manto e sem luz, com a humildade dos verdadeiros santos. E eu fui, como quem não queria nada e em verdade querendo tudo, lhe fazendo as perguntas:

P- Se tivesse de escolher entre a literatura e a maternidade, o que você escolheria?

R- (…) eu desistiria da literatura. Não tem dúvida que como mãe sou mais importante do que como escritora.   

P- A mãe deve seguir alguma diretriz especial?

R- À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme.

P- Qual a sua mais remota lembrança ou impressão desta vida?

R- Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo sentia que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça. 

P- E da outra vida, há alguma remota lembrança ou impressão?

R- Estou certa de que através da idade da pedra fui exatamente maltratada pelo amor de algum homem. Data desse tempo um certo pavor que é secreto.

P- Lendo os seus livros, a gente percebe que não apenas os seres humanos – também os bichos lhe impressionam.

R- (…) sinto os bichos como uma das coisas ainda muito próximas de Deus, material que não inventou a si mesmo (…); e como uma das formas acessíveis de gente. 

P- Qualquer maneira de chorar vale a pena?

R – Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem.

P- Você se considera uma pessoa ordenada?

R- (…) as pessoas que se preocupam demais com a ordem externa é porque internamente estão em desordem e precisam de um contraponto que lhes sirva de segurança.

P- Escrever lhe é substancialmente necessário?

R- Minhas intuições se tornam mais claras ao esforço de transpô-las em palavras. É neste sentido, pois, que escrever me é uma necessidade.

P- O escritor tem que estudar para escrever?

R- (…) para escrever, o único estudo é mesmo escrever.

P- Que pedido você faria ao linotipista que compõe os seus textos?

R- (…) não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim. E, se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.

P- Hoje é domingo, Clarice, e nem eu nem você estamos na igreja. Você acredita em Deus? R- Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude. (…) Deus tem que vir a mim, já que não tenho ido a ele.

Hoje, 12 de novembro, comemora-se o 106º aniversário da morte do poeta do Eu, marco da nossa pré-modernidade literária por romper com o código parnasiano-simbolista. Essa obra cada vez mais se populariza graças às imagens vigorosas e à representação, entre outros tópicos, da melancolia humana decorrente do “pecado original”. Culpa, rejeição ao materialismo mecanicista e anseio de transcendência latejam numa poesia marcada por excessos e contrastes. Esses traços dissonantes, que lhe imprimem uma áspera musicalidade, vêm exercendo sobre o público uma atração cada vez maior.

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